FALA MESTRE POP

Mestre Pop na Lagoa do Peri

Trinta de março de 2012. Tarde de sol bonito…

Às margens da deslumbrante Lagoa do Peri, quintal da casa de Mestre Pop, conversamos sobre sua vida e a Capoeira. O bate-papo foi muito agradável e pude conhecer um pouco mais sobre este Mestre que foi o pioneiro em Santa Catarina, dedicando a sua vida a nossa arte Capoeira.

FALA MESTRE POP:

“Meu nome é LOURIVAL FERNANDO ALVES LEITE, na Capoeira conhecido como Mestre Pop.

Nasci em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

Sou filho de Maria Júlia Alves e Joaquim de Oliveira, ambos de Macaubas – Bahia.

Nasci em 19 de março de 1953. Sou de uma família com mais dois irmãos, uma irmã mais velha a Marilda e o Sérgio que é mais velho do que eu. Ambos moram em Campo Grande.

Iniciei a minha prática na Capoeira no final de 1974 para 75 com Mestre Gato de Sinhá, que era da linhagem de Mestre Caiçara. Fiquei seis meses treinando com Mestre Gato que depois foi embora para Corumbá – Mato Grosso do Sul. Simultaneamente chegou a Campo Grande o Mestre Fernandinho e eu fui treinar com o ele aproximadamente um ano e meio.

No verão de 1976/1977 saio de Campo Grande para Balneário Camboriú. Chego à Ilha (Florianópolis) início de 1977 e começo a fazer um trabalho de Capoeira no dia 1° de agosto do mesmo ano, no Educandário 25 de Novembro. A partir daí, fui desenvolvendo diversas atividades e projetos com a Capoeira, como um dos pioneiros aqui no Sul e continuo até hoje.

Quando cheguei a Florianópolis fui para a Praça XV, (eu era artesão) para expor meu artesanato. Fiquei um tempo morando em Garopaba e vinha para Florianópolis periodicamente vender meus trabalhos. Só depois vim residir no bairro Sambaqui. Nesta época tive a oportunidade de conhecer o professor Nóbrega Fontes na Praça XV, que era uma pessoa ligada a Secretaria da Cultura e que promoveu no Rio de Janeiro o troféu Berimbau de Ouro. Este troféu foi um campeonato que o Grupo Senzala foi vencedor três vezes seguido.

Foi o Nóbrega Fontes quem me deu a oportunidade de trabalhar no Educandário 25 de Novembro. Em homenagem a ele criei o primeiro grupo de Capoeira aqui da Ilha que foi o Berimbau de Ouro e também tinha o Grupo Infantil do Educandário 25 de Novembro. Fazíamos um trabalho com as crianças do Educandário e com adultos (universitários, trabalhadores, pessoas das mais diversas classes sociais) no Grupo Berimbau de Ouro que ficava na Rua Francisco Tolentino.

A minha história com a Capoeira: comecei com o Gato de Sinhá, que era aluno do Mestre Caiçara e o Fernandinho que também atribuía o Caiçara como seu Mestre.

Vou falar um pouco do Fernandinho: Ele era um angoleiro da linhagem do Mestre Caiçara, Paulo dos Anjos, Mestre Nô, Mestre Cutica. Eu venho desta linhagem. Como não tive muito tempo de convivência com o Mestre Fernandinho, apenas um ano meio, eu cheguei a Florianópolis ainda muito jovem na Capoeira. Eu tive que me virar, ficando como autodidata e acabei influenciado por vários capoeiristas.

Neste período eu conheço os Mestres Sergipe, Burguês e Monsueto que estavam chegando aqui no Sul. Eu era o mais jovem de todos estes Mestres, não tinha ainda o título de Mestre.

Meu título de Mestre veio a partir de um evento em Porto Alegre do Mestre Monsueto. Chegando lá eu disse a ele que não era Mestre, mas mesmo assim o Monsueto me apresenta como Mestre. Terminou assim constituindo uma responsabilidade que eu não tinha.

Uma pessoa que me incentivou muito para assumir esta condição de Mestre foi o Mestre Touro, através de uma carta que ele me enviou, dizendo que eu já era Mestre e que tinha que lutar para honrar esta condição, usar uma corda verde e branca e honrar esta corda. Eu como artesão, trancei uma corda e passei a adotar a titulação de Mestre.

Neste período de mais de trinta anos, mudei muito. Da Capoeira de origem do Mestre Fernadinho eu vou para a Capoeira Contemporânea, passo a ter contato com a Capoeira do Rio de Janeiro a partir do Mestre Cigano, do Mestre Squisito de Brasília aluno de Mestre Tabosa. Essas pessoas me influenciaram na busca da Capoeira Contemporânea.

Mais tarde passo a ter um contato com Mestre Miguel, que tinha convivência com Mestre João Pequeno. Em 1987 ele vem a Florianópolis com o intuito de passar fundamentos da Capoeira Angola da linha do Mestre Pastinha. Eu também busquei assimilar estes fundamentos, mas acabei seguindo o caminho da Capoeira Contemporânea.

Hoje eu procuro fazer um trabalho que chamo de transdisciplinar, um trabalho plural, que é um resgate da minha Capoeira, que passa principalmente pela Capoeira Quilombola do Mestre Pinóquio, que foi meu primeiro discípulo e aluno que se formou e chegou a esta condição de Mestre.

Hoje eu busco também o resgate desta fundamentação, desta Capoeira que é minha Capoeira original, sem deixar de lado a Capoeira Contemporânea. É essa minha trajetória!

Ser um capoeirista é ser um indivíduo compromissado com a história, com seu tempo. Que tem uma responsabilidade de manter as tradições, um incansável pesquisador, para manter sempre atualizado o conhecimento. Estar pleno na roda e fora dela, com a Capoeira. Ser um representante desta cultura. Ser capoeirista pra mim é isso! Ser uma pessoa compromissada com a causa da Capoeira através de suas várias faces, nas questões social, cultural e histórica.

A Capoeira da Ilha nestes últimos anos mudou muito. Na década de noventa, os que aqui chegaram, chegaram com muito afinco de provar, mostrar trabalho, de se afirmar. Aquele momento foi muito ruim. Mas agora passou esse período, os capoeiristas estão mais amadurecidos, os grupos hoje na sua maioria têm uma convivência saudável, com algumas pequenas diferenças, mas que não chega a ser uma relação hostil.

A Capoeira de Florianópolis está muito bem. Só o que eu sinto é que houve um esvaziamento de novos praticantes. O número de capoeiristas é menor do que no passado, mas hoje tem mais qualidade.

A roda de rua é imprescindível! A Capoeira sem roda de rua não é Capoeira. A Capoeira nasce na rua e é na rua que ela tem sua verdadeira identidade. É na rua que a Capoeira se manifesta na sua forma mais original, mais pura, mais franca, sem estampa, sem logomarca.

A Capoeira de Rua é tudo!”

Uma música…

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Sobre jocapoeira

Mulher, mãe, profissional da Educação e Capoeirista. Ver todos os artigos de jocapoeira

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